Que violência

Traseiras da igreja da Praça de Londres, poucos dias antes do Natal.

Não chove, mas está frio. Uma temperatura que torna mais agradável segurar a mão da pessoa de quem se gosta.

Um casal jovem segue pelo passeio, de mão dada, a conversar sobre as despesas da época: as prendas, a prestação do carro, a viagem da passagem de ano. Os rendimentos de ambos não são muito elevados, exigindo alguma habilidade para conseguirem fazer tudo o que pretendem.

Um homem cruza-se com eles. Já quase os tinha deixado passar, quando dá meio passo atrás e diz:

– Desculpem…

O casal pára, convencido de que lhes vai pedir uma informação: “Onde fica a rua x?”

– Eu peço desculpa por interromper… – continua.

Afinal talvez fosse um vendedor, pensa Fernando, e espera que avance no seu discurso para responder: “Não estou interessado”.

O homem mostra alguma dificuldade em falar. Leva a mão à boca como se estivesse engasgado. Um vendedor seria bem mais fluente, por isso, Fernando volta a tentar adivinhar: talvez pertença a uma seita religiosa.

O homem tenta mais umas palavras até que se ouve:

– … na verdade eu estou a pedir uma esmola – volta a interromper-se, num silêncio forçado pela garganta que retém as palavras.

O homem veste um pulóver verde, umas calças de bombazina castanhas, traz no braço um casaco bege. As roupas são novas e ele mostra ter cuidado com a apresentação.

– … eu volto a pedir desculpa, mas cheguei a um ponto em que não me resta outra solução… – prossegue.

Fernando usa a vantagem de estar escondido pelos óculos escuros, que o protegem do sol frio daquela tarde de Dezembro, para observar simultaneamente o rosto de Carla e do homem. Este mostra-se envergonhado, enquanto ela o ouve com atenção e respeito.

– Trabalhei durante 23 anos numa empresa. De um momento para o outro a empresa fechou e eu vi-me na rua com 52 anos, sem perspectivas de emprego, sem nada…

O primeiro impulso de Fernando é responder o que respondia a todos os mendigos: “Não tenho dinheiro trocado”. Mas aquele é diferente: aquele podia ser ele próprio.

– … é por isso que vos peço, seja o que for que puderem dar…

Carla diz que não tem e olha para Fernando com uma expressão que diz: “Não tenho mesmo, dá tu”.

Fernando tira do bolso uma moeda de um euro – o que se paga a um arrumador para ele não nos riscar o carro – e dá-lha.

O homem estende a mão sem olhar para a moeda, continuando a falar com se quisesse ignorar o que estava a acontecer.

Carla diz:

– Um bom Natal para si – e, apercebendo-se de como eram absurdas as suas palavras, acrescenta rapidamente – dentro do possível.

Com uma expressão que demonstra compreensão pelo lapso, o homem responde:

– Dentro do possível.

Depois, com um tom de voz que deixa inequívoca a gratidão, acrescenta:

– Felicidades!

Parecia estar grato mais pela atenção que lhe tinham dedicado do que pela moeda.

Afastam-se, o homem para um lado, o casal para o outro.

Ficam os dois em silêncio durante algum tempo. Fernando sente remorsos por ter dado tão pouco dinheiro. Apesar das suas próprias dificuldades podia ter dado um pouco mais.

Passado algum tempo Carla rompe o silêncio:

– Que violência.

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