Arquivo de Julho, 2011

As bruxas

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/30 by terrasencantadas

“Quando chegou à estrada o gato parou e deu um passo atrás convidando Rita a aproximar-se. Ela baixou-se e começou a acariciar-lhe o pelo suave. Nesse instante o gato começou a inchar numa explosão lenta de formas desconexas até assumir o aspecto de uma mulher velha, vestindo roupas pretas e sujas, com dois dentes podres que espreitavam por trás de um riso sinistro. Assustada, a rapariga deu um salto e tentou fugir, o que a mulher impediu, segurando-a pelo cabelo. Depois agarrou-a pela cintura e subiu para o céu que o calor distorcia, voando.”

Entre as diversas faculdades atribuídas às bruxas, na mitologia portuguesa, encontram-se a capacidade de se transformarem em animais – como galinhas ou gatos – e de voarem, depois de se untarem com sebo de sapo ou outros unguentos.

Bater com o pé no chão três vezes

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/28 by terrasencantadas

“Depois bateu com o pé no chão três vezes, pronunciando palavras que Sara e os jovens não entenderam e a rocha arrastou-se para o lado esquerdo, produzindo um som rouco e pesado e revelando um poço que mergulhava nas trevas do interior da terra.”

Bater com um pé no chão três vezes – como faz al-Farah neste excerto de O Elmo de Cristal – é um gesto mágico que surge frequentemente nas lendas de mouras encantadas como forma de abrir portas ou passagens bloqueadas por meio de magia.

As Antas do Olival da Pega

Posted in ficções, património on 2011/07/26 by terrasencantadas

“Diziam também que havia um tesouro fabuloso enterrado entre as enormes lajes, no entanto poucos eram os que se atreviam a perturbar os mortos e, entre os que o tinham feito, ainda ninguém se vangloriara de ter descoberto o tesouro.

(…) Lugares de mistério que estimulavam a curiosidade de Balen. Lugares que encerravam um conheci- mento que há muito os homens haviam esquecido. Lugares que inspiram respeito, medo a alguns, mas também admiração.”

As Antas do Olival da Pega, que serviram de cenário a este episódio de O Elmo de Cristal, estão situadas nos arredores de Monsaraz, a região de Portugal onde se encontra a maior concentração de monumentos megalíticos. Estas estruturas, com milhares de anos de existência, sempre despertaram a curiosidade dos povos que se sucederam na ocupação do território, originando lendas de tesouros e mouras encantadas.

Na mitologia portuguesa, como nas mitologias de outros países, as antas são consideradas portas de ligação entre mundos: o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; o mundo dos humanos e o mundo dos seres sobrenaturais.

A serpente e a moura encantada

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/24 by terrasencantadas

“A beleza do seu rosto e a sensualidade dos seus movimentos contrastavam com a aparência bizarra do seu corpo. Da cintura para baixo tinha a forma de serpente, junto ao umbigo as escamas escuras tornavam-se mais pequenas, mais claras e menos duras, até darem lugar à pele morena e bonita da elegante cintura da moura.”

As mouras encantadas podem aparecer sob forma humana ou sob a forma de serpente. Há também lendas que falam de mouras que são avistadas sob a forma de outros animais, mas são raras. Assim, muitas mouras, ao serem encantadas ficam aprisionadas no corpo de serpente sendo-lhe permitido assumir a forma humana apenas durante a noite de S. João. Algumas têm corpo de serpente da cintura para baixo e de mulher da cintura para cima, outras têm apenas a cabeça humana e o resto do corpo de réptil, enquanto outras assumem totalmente o aspecto de serpente.

O cântico das mouras encantadas

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/22 by terrasencantadas

“Ricardo levou as mãos aos ouvidos e sacudiu a cabeça como que para se libertar daqueles sons que se entranhavam no cérebro, entorpecendo-o. Era um cântico tão belo quanto o de Anassir, mas criava um ambiente assustador. Era uma melodia sinistra, gélida e ao mesmo tempo sedutora.”

A música está sempre presente nas lendas de mouras encantadas, reflectindo o destino trágico que as protagonistas sofreram e os desgostos de amor que as marcou a quase todas. Muitas lendas falam de mouras avistadas na noite de S. João, penteando os cabelos ao luar e entoando tristes melodias.

Quebrar o encantamento

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/20 by terrasencantadas

“Um dia Azima tentou convencer uma mulher que passava perto da caverna, nas Terras Esquecidas, a desencantá-la e ela assim o prometeu. Para isso teria de ir para casa amassar e coser um pão sem dizer a ninguém com que finalidade o fazia, depois levar-lho-ia e ao comê-lo Azima seria desencantada. Mas a mulher faltou ao prometido e disse ao marido o que ia fazer com aquele pão. Como consequência o encantamento de Azima foi dobrado, enterrando-lhe o palácio nas profundezas da terra e aprisionan- do-a ali até que apareça alguém com coragem para a desencan- tar.”

Este excerto de O Elmo de Cristal exemplifica um elemento frequente nas lendas de mouras encantadas: um humano que se propõe a desencantar uma moura e que, por medo, falta de convicção ou debilidade de espírito, fracassa nas suas tentativas, dobrando à moura o encantamento que a mantém cativa. Por regra, este fracasso origina a um castigo ou vingança, muitas vezes cruel, por parte desta entidade mitológica.

O encantamento

Posted in ficções, mitologia on 2011/07/18 by terrasencantadas

“Prendeu-nos a ambos e levou-nos para Sharish. Ali, após tê-lo trespassado com uma lança, atirou Leovigildo do alto das muralhas. A mim trouxe-me até esta anta e encantou-me para que eu nunca esquecesse aquele dia horrível.”

São diversas as razões que estão na origem do encantamento das mouras. Frequentemente é usado como castigo por se terem envolvido num amor proibido. A moura que se apaixona por um cavaleiro cristão, chegado a converter-se para poder casar com ele, é um tema recorrente. Talvez por isso a melancolia e um certo romantismo trágico estão sempre presentes nas lendas de mouras encantadas.

Em O Elmo de Cristal, Fatmah é encantada pelo marido como retaliação por se ter envolvido com um guerreiro visigodo.