Arquivo de Novembro, 2010

Eclipse

Posted in cenários, ficções, paisagens, património on 2010/11/28 by terrasencantadas

Alertado para a invulgar tonalidade que a luz do dia ganhara, o velho acabou por deixar a manada percorrer o caminho que insistia em seguir e olhou para o céu. O Sol tinha perdido a força e o seu brilho apagava-se, ao mesmo tempo que uma mancha redonda e escura se aproximava ameaçando encobri-lo.

Em pouco tempo escureceu até a manhã se tornar noite. Anio devolveu o cajado ao velho, que estava ao seu lado e se mostrava tão assustado quanto o jovem.

– O que está a acontecer, Tongio? – insistiu.

– O Sol apagou-se. Diz-se que os reis antigos conseguiam dominar os astros e reacender o Sol quando ele se apagava, mas agora não resta ninguém com esse conhecimento. [inO Veneno de Ofiúsa”]

Noite

Posted in ficções, paisagens, património on 2010/11/24 by terrasencantadas

As luzes da cidade boiavam na água do rio, agarrando-se à noite para que a corrente não as arrastasse. Sentado no parapeito da janela do meu quarto, acompanhava com o olhar o deslizar daquela densa massa de água.

Agosto chegara havia pouco tempo e o calor abafava as noites. O telefone tocou. Era o Miguel a chamar-me para ir beber um copo. Ele e os outros estariam à minha espera no bar do costume. Desliguei a televisão onde era entrevistado um marinheiro que afirmava ter visto, na noite anterior, duas gaivotas de tamanho descomunal e com cabeças humanas. Saí de casa e desci a rua em direcção ao rio que arrastava a noite. Ignorei o autocarro e segui a pé até ao bar onde habitualmente me reunia com os amigos.

Castro de Carvalhelhos 2

Posted in cenários, ficções, paisagens, património on 2010/11/18 by terrasencantadas

Os Sefes da escolta de Malgenio desembainharam as suas espadas para vingar o companheiro abatido pelo dardo de Camal. Mas antes deste ter tido oportunidade para se defender um deles soltou um grito abafado e tombou no chão com a cabeça a sangrar. Logo a seguir aconteceu o mesmo a outro guerreiro Sefe. Então viram Anio, sobre a grande muralha que rodeava o povoado, alvejando-os com a funda que manuseava eximiamente.

Camal aproveitou a confusão causada pela intervenção do amigo e, reconhecendo que os Sefes eram demasiados para que conseguisse fazer-lhes frente, fugiu, correndo entre as casas, na direcção da porta da muralha. [inO Veneno de Ofiúsa”]

As Sete Bruxas

Posted in cenários, ficções, paisagens on 2010/11/13 by terrasencantadas

“Abo (Terras Encantadas), Outono de 1163

O cavalo de Balen al-Farah avançava com dificuldade entre as árvores e os arbustos densos da floresta. A capa castanha que o envolvia protegia-o da chuva persistente que caía desde o final da manhã e confundia-se com os tons das folhas douradas que pendiam nas árvores. O mouro ouvia as grossas gotas de água que se soltavam dos ramos em seu redor e tombavam no chão, o som abafado dos cascos da montada ao pisarem o manto de ervas verdes e folhas mortas, e ouvia também alguns ruídos breves e furtivos que não conseguia identificar. Esses sons, que começara a ouvir havia algum tempo, pareciam segui-lo e eram acompanhados por algumas sombras que por curtos instantes se revelavam, deslocando-se entre a vegetação da floresta. De resto imperava o silêncio. Um silêncio triste e quase opressivo que acentuava o sentimento de solidão que aquela paisagem transmitia.

Al-Farah mantinha-se atento, receando cair numa emboscada. Os sons que ouvia podiam ser causados por animais, na pior das hipóteses por um javali ou um urso, mas também podia estar perante outro tipo de ameaça. Corriam rumores segundo os quais Abu Sakan se tinha colocado ao serviço dos Encobertos e estaria a apoiar Cassima a reunir sob a sua chefia todos os mouros-serpente. Até então, Sakan tinha-se limitado a juntar-se a bandos de salteadores, em conluios pouco prolongados, visto ninguém tolerar por muito tempo o seu carácter mesquinho e traiçoeiro, mas se fosse verdade que o mago se colocara às ordens dos Senhores do Mal, então tinha-se tornado realmente perigoso.

O risco revelara-se uma companhia constante desde o início da viagem. Pouco depois de partir de Sharish, terra de onde era alcaide, al-Farah vira-se forçado a encaminhar-se para ocidente, para evitar o encontro com um grupo de Homens das Pedras Grandes, desviando-se do percurso que o levaria ao palácio de Zaida, no nordeste das Terras Encantadas. Mais tarde, ao deparar-se com um bando de asinomens viu-se obrigado a desviar-se ainda mais para ocidente, acabando por percorrer um trajecto que passava pelas vertentes ocidentais da Jabal Shârra, onde se encontrava agora. Aproveitou a protecção proporcionada pelas florestas que cobriam aquelas terras e decidiu retornar ao caminho certo apenas quando estivesse a norte da cordilheira. Mas os ruídos que o perseguiam demonstravam que a segurança que procurara se revelara enganadora.

Naquela época quase todos os mouros se mostravam mais preocupados em libertarem-se dos encantamentos que os prendiam e em regressar às Terras Esquecidas do que em estabelecer alianças e relações de amizade. Por onde quer que passasse seria pouco provável encontrar acolhimento antes de chegar ao Reinos dos Sete Emires, numa região muito a norte da Jabal Shârra, onde sete soberanos haviam unido os seus territórios e criado uma aliança, fundando um país próspero e seguro. Essa aliança, bem como a que Zahara estabelecera entre os mouros das águas, era uma rara excepção ao individualismo dos povos das Terras Encantadas.

Al-Farah removeu o capuz que o protegia da chuva para escutar melhor os sons que o cercavam, sentindo a chuva fina molhar-lhe o rosto. Depois desse gesto os sons pareceram cessar, como se quem os causava tivesse tomado consciência da sua atenção redobrada.

Permitiu que o cavalo descesse o terreno íngreme até uma vasta clareira que se abria em torno do curso sinuoso de um rio. Sobre um monte que se erguia abruptamente na margem oposta, observou um pequeno castelo e um aglomerado de casas que se estendiam pela encosta em redor da fortaleza. Não lhe agradava a ideia de abandonar a protecção da floresta, mas o cavalo precisava de beber água e, na verdade, tudo sugeria que a vegetação não o mantinha a salvo de todos os perigos.

Fez o cavalo avançar e, já no vale plano, ao mesmo tempo que uma rajada de vento gelado o sacudia, viu um cavaleiro parado junto ao rio, virado para o castelo que se erguia em frente. O receio de uma armadilha acentuou-se, mas pensou que não era o momento indicado para hesitar e continuou em frente.

O castelo, cujo perfil se delineava contra o céu cinzento, e o povoado que o envolvia mostravam-se estranhamente desertos. Não se viam sentinelas nas muralhas nem pessoas nas estreitas ruelas. O cavaleiro desconhecido permanecia imóvel. Usava um turbante azul-escuro e uma capa preta que o cobria totalmente e lhe dava um ar sombrio.

Os cascos do cavalo de al-Farah ressoavam no cascalho depositado pela água do rio na praia que se estendia ao longo da margem direita, mas o desconhecido parecia, ou fingia, não o ouvir, mantendo-se imóvel, envolvido pela sua capa preta, assemelhando-se a uma assombração. Em volta ouvia-se o sussurro das folhas das árvores sacudidas pelo vento e o murmúrio da água a correr no rio. Para além disso o silêncio era total, tendo desaparecido até os ruídos que o haviam seguido pelo interior da floresta.

No alto do monte que se erguia no outro lado do rio, o pequeno castelo exibia as suas muralhas feitas de pedras escuras e encharcadas pela chuva. A torre de menagem escondia-se na névoa que deslizava sobre os pontos mais altos. Nem no castelo nem no povoado se via alguém. A única presença visível era a do cavaleiro que, ignorando a aproximação de al-Farah, permanecia imóvel, envolvido pela capa preta que o fazia parecer uma assombração.”

[continuar a ler o conto]

Nas Encostas do Monte Sagrado

Posted in cenários, ficções, paisagens on 2010/11/09 by terrasencantadas

“Ricardo via Wazir e Walid trepar enormes rochedos com uma agilidade espantosa, fazendo erguer os seus corpos suspensos apenas com a força dos dedos com que se agarravam às rochas e tinha cada vez mais vontade de lhes pedir que o ensinassem a escalar os penedos com a destreza com que eles o faziam.” [inO Monte Sagrado”]

O Cão

Posted in notícias, paisagens, património on 2010/11/04 by terrasencantadas

Uma das particularidades que mais curiosidade me despertou na primeira vez que fui a Mértola foi, e isto aconteceu em todos os núcleos museológicos que visitei, ver que os/as recepcio- nistas dos museus estão acompanhados por pessoas (vizinhos, familiares) que ali se sentam a conversar com eles durante boa parte do dia. Alguns chegam mesmo a levar cães para dentro dos museus. E foi por isso que, enquanto inspeccionava os interessantes livros que estavam à venda no Museu de Arte Islâmica, fui mordido (na bota, felizmente) por um cão que tomou o movimento do meu pé, simplesmente a deslocar-se de um ponto de apoio para outro, como uma ameaça e reagiu mordendo-me.