Arquivo de Outubro, 2010

A Canga de Ouro

Posted in cenários, ficções, paisagens on 2010/10/30 by terrasencantadas

Galisiya (Terras Encantadas), Verão de 1414

O Sol quente batia nas encostas que comprimiam o vale, tornando difícil suportar as couraças e elmos de aço que os mouros usavam. Esse desconforto era ainda agravado por terem de permanecer imóveis em posições incómodas, de forma a manterem-se encobertos pelos arbustos e rochedos que cobriam a encosta sul do vale.

Dois homens trocavam algumas palavras em voz baixa, entre longos intervalos de silêncio. Ocultos por trás de um penedo no topo da encosta, Balen al-Farah, alcaide de Sharish, e o seu amigo Diogo Mendo, olhavam para ocidente na expectativa de ver surgir os basiliscos.

– A cota de malha de al-Zaide protege-o do olhar venenoso dos basiliscos, mas não dos bicos e garras aguçadas – disse Diogo Mendo, preocupado. O seu cabelo louro e solto contrastava com os turbantes que envolviam as cabeças dos outros homens.

Ao longo do vale ouvia-se apenas o barulho causado pela água ao correr pelo leito rochoso do rio e que se tornava mais intenso por acção das montanhas erguidas ao longo das margens, como duas imensas muralhas que guardavam o curso de água serpenteante. Os pássaros deixaram de chilrear e fugiram para longe, parecendo adivinhar que em breve aquele local calmo e desabitado se tornaria o cenário de uma batalha.

– Tenhamos confiança. Al-Zaide já enfrentou situações mais arriscadas e foi bem sucedido – respondeu al-Farah.

Nas últimas semanas alguns bandos de basiliscos tinham atacado vários povoados do norte das Terras Encantadas. Não eram numerosos, mas um só desses répteis podia destruir toda uma aldeia. A resistente camada de escamas que lhes cobria o corpo protegia-os do impacto de flechas, lanças e até das mais afiadas lâminas de sabre. Os basiliscos possuíam garras capazes de rasgar facilmente os corpos das vítimas, mas o que os tornava mais temíveis era a sua capacidade de causar a morte apenas com o olhar.

O confronto directo com os basiliscos era quase sempre fatal e os mouros tinham que criar estratagemas para evitar a mais terrível arma desses animais.

Os territórios do sul responderam ao apelo dos do norte e enviaram vários exércitos para combater os répteis. Um desses exércitos era comandado por al-Zaide, filho do emir de Xelb, ao qual se juntara um grupo de guerreiros de Sharish e outro vindo da região central das Terras Encantadas, sob o comando de Mugawir.

Al-Farah e Diogo Mendo começaram a ouvir, ainda longe, o galope de um cavalo e os gritos arrepiantes que o perseguiam. Os dois homens entreolharam-se e, sem mais palavras, o último correu para junto dos guerreiros que estavam sob as suas ordens, enquanto o alcaide de Sharish redobrou a atenção para, quando chegasse o momento certo, fazer o sinal que todos aguardavam para iniciar o ataque.

Passados poucos minutos al-Zaide entrou no vale, apressando o cavalo para que corresse cada vez mais depressa. Era seguido por mais de vinte basiliscos que iam ganhando terreno, aproveitando o cansaço do cavalo e o piso irregular por onde corriam.

O espaço entre o mouro e os répteis parecia distorcido, como acontece nos dias mais quentes quando o calor que o solo emana distorce o ar junto ao chão. Mas neste caso devia-se às ondas lançadas pelos olhos dos basiliscos que tentavam atingir o cavaleiro que perseguiam há meia-hora. Só não o matavam porque ele usava um elmo e uma cota de malha, feitos por Zahara, a Senhora das Águas, que o tornava imune a qualquer agressão feita por meio de magia e também ao olhar destas criaturas.

Al-Farah viu surgir uma cabeça entre os penedos no topo da encosta, do outro lado do vale. Era Mugawir que esperava, impaciente, o seu sinal para iniciar o ataque. O alcaide de Sharish viu que al-Zaide não conseguiria manter-se fora do alcance dos répteis durante muito mais tempo, mas era necessário que os arrastasse mais umas centenas de metros para o interior do vale para que ficassem ao alcance dos mouros que estavam espalhados ao longo das encostas. Se iniciassem o ataque demasiado cedo, ao aperceberem-se de que estavam a cair numa emboscada, os basiliscos teriam tempo de voltar para trás e sair do alcance das armas, fazendo fracassar o plano.

De repente, o cavalo de al-Zaide tropeçou numa das grandes pedras soltas que cobriam o trilho, vestígios do que alguns séculos antes fora o pavimento liso de uma estrada importante, e atirou o cavaleiro ao chão.

Imediatamente al-Farah deu o sinal que todos aguardavam e, do topo da encosta norte, começaram a cair enormes blocos de pedra disparados pelas catapultas dos guerreiros de Mugawir, colocadas para lá do cume, fora do campo de visão dos répteis, mas suficientemente perto para os deixar ao alcance dos projécteis.” [continuar a ler o conto]

Calor

Posted in ficções, paisagens on 2010/10/25 by terrasencantadas

O calor estava suspenso nas folhas das árvores que ainda se mantinham verdes. Sob elas, as pessoas refrescavam- se nas sombras líquidas reclamando por o calor que esperaram durante tantos meses ter vindo em excesso.

Memória

Posted in ficções, paisagens on 2010/10/21 by terrasencantadas

Acordei cedo, despertado pelos bocados de luz que rasgavam as duas janelas do meu quarto. Os aromas que anunciavam a chegada da Primavera como uma presença concreta faziam-me sentir como só os heróis de romances juvenis se sentem. Levantei-me e abri as janelas deixando a manhã inundar o quarto. Senti a felicidade em toda a sua plenitude. Pelo menos, lembro-me daquela manhã como uma colecção de momentos perfeitos. Admito que grande parte deles tenham sido criados pela minha imaginação estimulada pela nostalgia e cansaço que se aliou a mim  na busca de um universo em que a minha existência tivesse uma razão de ser

Monsaraz

Posted in cenários, ficções, paisagens, património on 2010/10/15 by terrasencantadas

“Ricardo contou que depois do Verão voltou a Monsaraz, com os pais, em alguns fins-de-semana. Durante esses dias percorreu as ruas da vila e demorou-se particularmente junto das muralhas e do poço, recordando o que viveram em Sharish e desejando, em vão, voltar a encontrar algum dos mouros encantados de quem se tinha tornado amigo. Por várias vezes prolongara os seus passeios em BTT até à Anta 2 do Olival da Pega, sem que alguma vez visse nela algo para além das pedras de que era feita.” [inO Monte Sagrado”]

O Monte Sagrado

Posted in cenários, ficções, paisagens on 2010/10/11 by terrasencantadas

“Monsanto ficou à vista, muito antes de lá chegarem, destacando-se entre todas as outras pequenas montanhas e colinas, fazendo esquecer, pela sua imponência, o resto da paisagem. Sara apontou-lhes o majestoso monte, explicando que era visível de quase todos os pontos da região, a muitos quilómetros de distância e acrescentou que talvez fosse por isso que os romanos lhe chamaram o Monte Santo.” [inO Monte Sagrado”]

Monsaraz – Sharish

Posted in cenários, ficções, património on 2010/10/07 by terrasencantadas

“Apesar da pressa que levava, não conseguiu deixar de comparar Monsaraz a Sharish. As pequenas e frágeis muralhas da vila alentejana não se comparavam às da fortaleza de Balen al-Farah. Também as casas, apesar de preservarem a influência mourisca, eram muito mais humildes que as de Sharish. Ainda assim, as portas góticas, as paredes medievais, arrastavam Monsaraz para um outro tempo e, naquela noite, Ricardo encontrava uma clara ligação entre o ambiente daquela vila e as Terras Encantadas.” [inO Elmo de Cristal”]

Finanças

Posted in notícias on 2010/10/02 by terrasencantadas

Há alguns dias recebi um ofício que me convocava a comparecer na Repartição de Finanças de Odivelas com o propósito de esclarecer uma “aparente” contradição na minha declaração de IRS.

Estando eu inscrito na actividade de Criação Artística e Literária, declarei rendimentos provenientes de Propriedade Intelectual, sendo a entidade pagadora uma editora de livros.

Acontece que, por lapso, a entidade pagadora declarou que esses rendimentos não eram provenientes de Propriedade Intelectual. É um erro aceitável, mas deixa evidente uma contradição entre a actividade das entidades envolvidas e a natureza do pagamento efectuado. No entanto, os Serviços do IRS acharam mais seguro pedir-me esclarecimentos a mim.

O funcionário que me atendeu, bastante solícito e reverente, devo reconhecer, explicou-me que “é sempre assim que se faz”. Confrontei-o com a coerência dos dados por mim apresentados e com a incoerência dos dados apresentados pela entidade pagadora e perguntei-lhe se achava normal questionar primeiro quem não demonstra qualquer contradição.

Ouvindo-me com atenção, o solícito funcionário concordou que não havia qualquer incongruência na minha declaração de IRS, mas acrescentou, com toda a naturalidade, que a regra é contactar quem recebe e não quem paga. Mais ainda, demonstrando algum orgulho pelo vago cariz cultural da tarefa de que fora incumbido, disse-me que só no concelho de Odivelas tinham sido contactadas 26 pessoas na mesma situação que eu.

Talvez o referido funcionário tenha razão, talvez eu devesse revelar uma maior capacidade para entender as razões que movem a Direcção de Serviços do IRS. Os escritores são operários que lidam com ideias e palavras, matéria-prima que, nos dias que correm, instigam a aversão de muita gente. Nada mais cómodo que tratá-los como potenciais suspeitos de qualquer presumível crime, mesmo quando as pistas sugerem outros culpados.