Arquivo de Janeiro, 2010

O Monstro

Posted in ficções on 2010/01/21 by terrasencantadas

Maldito livro! Amaldiçoado instante em que lhe toquei pela primeira vez. Em que permiti aos meus dedos desfolharem as suas páginas demoníacas!

Deixei-me envolver lentamente, embrenhando-me numa leitura sem pressa, sem tempo, como que inebriado por um pérfido encantamento.

“O Livro dos Seres Imaginários”, assim se chamava.

Não sei se foi um qualquer feitiço dissimulado nas palavras do texto, ou alguma matéria tóxica impregnada no papel, sei apenas que muito cedo começaram a revelar-se os seus efeitos nefastos. Primeiro a pele ficou irritada, inflamada. Mas a leitura aliciava-me, enlaçando-me como o canto de uma sereia e impedindo-me de prestar atenção a tudo o que acontecia fora daquelas páginas fatídicas.

O ardor inicial foi o prenúncio do sofrimento intenso que me assolou quando, por fim, toda a minha pele estalou como o solo crestado pela seca. No momento em que a dor me forçou a interromper a leitura já o meu corpo parecia estar coberto pela epiderme escamada de uma serpente.

Nessa altura irromperam as dores horríveis nas pernas. Era como se os ossos estivessem a ser dobrados ou estirados por uma força titânica. Os músculos contraíram-se, mostrando-se rígidos como pedra, pressionando uma perna contra a outra, tornando-as um único membro. Ao mesmo tempo os pés assumiram uma forma espalmada, esticando-se para os lados, unidos pelos calcanhares, como uma grotesca barbatana.

Mas o pior foi a cabeça. O meu rosto nobre e altivo alongou-se, tomando a forma de uma cabeça de cavalo, culminando a metamorfose que me reduziu a uma criatura monstruosa. Até os chifres caíram, como dentes desgastados em gengivas ressequidas. E do minotauro orgulhoso que um dia fui nada resta agora.

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Fraga da Pena

Posted in Uncategorized on 2010/01/16 by terrasencantadas

Fresco, calmo e deslumbrante, um oásis de xisto que se entranha nas emoções. Nas tardes de Verão observamos a luz quente a espalhar-se pela mata e a água a correr apressada, misturando-se com a vegetação, sem conseguirmos encontrar vontade para partir.